Quando o Hugo nasceu, por ser o primeiro sobrinho, o primeiro da nova geração, nós sentimos que ele traria uma explicação para o futuro. Com ele, necessariamente, acabava nosso tempo de ser criança e começavam as segundas infâncias, aquelas a que atenderíamos de perto, sem cobiça, apenas maravilha. O Hugo era como o super-grão-de-bico que desde os tempos da Primária deitávamos a um nico de algodão molhado para ver germinar. Era a super-semente, ia resultar numa novidade que aprenderia a língua e diria coisas novas que a nossa geração subitamente avelhada não saberia prever.
Julgo que o maior espanto estava no facto de nós acedermos à descendência. Nós, ainda bastante baralhados com a idade, éramos afinal capazes de também criar humanidade, trazer do corpo esse milagre da multiplicação e do improvável. Diante do Hugo, que era mais do que a invenção da roda, toda a poesia de Homero, a pintura de Caravaggio ou o aparecimento das vacinas e da internet, auscultávamos a nossa complexa maravilha. Afinal, como nos livros, pertencíamos a essa maravilha dos que constroem almas, a pura alma começando ali, trazida ao nosso meio como se também nós fôssemos dignos de a requerer, de a inaugurar. Estávamos, definitivamente, conectados com Deus ou com os poderes divinos. Tínhamos magia, milagre.
Não me lembro de ter imaginado o meu sobrinho adulto, o que faria, se seria mais ou menos parecido com algum dos velhos da família. Lembro sobretudo de ele ser fundamental para aquele tempo infantil, como se o mais importante fosse garantir o regresso a essa experiência de ver tudo pela primeira vez e voltar a acreditar no Mundo como lugar melhorando. Era tudo sobre recuperar a esperança e, certamente, inocência ou, ao menos, ternura. Com o nascimento do Hugo fomos todos um pouco cândidos e apaixonados, feitos de flores e bicas de água fresca. Tínhamos em casa a maior das sortes e dos ouros. Tínhamos acolhido o sol.
Agora, anos e anos depois, verifico que as nossas crianças não crescem de verdade. Não deixamos. Contra toda a lucidez e até juízo, para nós o Hugo é um menino que vai sempre valer mais do que a roda, o Homero, o Caravaggio e as vacinas e a internet. Anos e anos depois, adulto, nós vêmo-lo como pequenino, capaz de nos caber nos braços, no colo, no berço embalado de nosso coração.
Fui muito contra velhos assim, agarrões e incapazes de deixar os mais novos partir. E mesmo agora, um velho agarrão, continuo contra. Faço muito do que não concordo. E adoro.