Margarida Rebelo Pinto

Mais amores


O Brasil tem duas alegrias que enchem o meu coração e animam o meu espírito, os amigos e o uso da língua portuguesa. No Brasil é fácil fazer amizades que tendem a durar a vida inteira. Tenho amigos desde os meus 20 anos, aquando do meu momento Pedro Álvares Cabral, que ainda hoje abraço com emoção e carinho. Nada mudou, apenas o tempo terá sido mais brando com esse território comum construído à distância que nada tem a ver com uma quimera. O Atlântico é um rio que nos liga ao povo irmão.

No Brasil leio muito, dentro e fora das livrarias. Se o Brasil é a minha segunda casa, qualquer livraria Travessa é a terceira. Navego à vista, perdida num mar de autores clássicos e contemporâneos e demoro a eleger os livros que vou carregar na mala de regresso, porque ainda não me rendi à leitura de ficção em suporte digital. Sei que um dia terá de ser assim, mas vou resistindo enquanto o Mundo deixa. Releio os clássicos que nunca me cansam, poesia, contos, crónicas. Machado de Assis, Clarice Lispector, Erico Verissimo, Vinícius, Drummond, Mário Quintana, Fernando Sabino, Cecília Meireles, Manoel de Barros, enquanto me aventuro pela obra de autores que ainda não conheço: Campos de Carvalho foi uma descoberta maravilhosa, dele recomendo “A Lua vem da Ásia”, ou Josué Guimarães, que escreveu a comovente pérola “Enquanto a noite não chega”.

No dia a dia suave do quotidiano, descubro expressões novas, formas elegantes e divertidas de usar o nosso querido idioma. Os brasileiros brincam com a língua como ninguém. O símbolo # no Brasil chama-se jogo da velha. E quando agradecemos algo, é comum o brasileiro responder, imagina. Os portugueses que nunca visitaram o Brasil pensam que conseguem imaginar como é, mas só quem pisa a terra a sul da linha do Equador entende a verdadeira essência de uma terra que fez Dom Pedro II, segundo reza a lenda, gritar junto ao rio Ipiranga “independência ou morte”.

A leveza brasileira e o talento para alegria sempre me impressionaram. Quando foram as comemorações da descoberta do Brasil, à qual os brasileiros preferem chamar achamento, a Xuxa cantava: “oh Cabral, aqui é o país do alto astral”.

O último grito de Ipiranga em Portugal foi em 1640 e ainda demorámos quase três décadas e expulsar os espanhóis de vez. Sempre que viajo, sinto que Portugal é um país anestesiado com o seu umbiguismo endémico onde a realidade tem tendência a espessar-se, como se nadássemos num imenso pastel de nata. No Brasil tudo escorre, claro e puro, como um coco acabado de abrir. Citando Gonçalves Dias, outro poeta recém-descoberto nas minha deambulações literárias, “Nosso céu tem mais estrelas,/ Nossas Várzeas têm mais flores,/ Nossos bosques têm mais vida,/ Nossa vida mais amores”. Oriundo de Caxias, no Estado do Maranhão, estudou Direito em Coimbra onde escreveu o famoso “Poema do exílio”, certamente aborrecido com a nostalgia que respirava em terras lusas. Os dois últimos versos estão eternizados no Hino Nacional Brasileiro. O oficial, que fala da garota mais linda, mais cheia de graça, que é ela menina, que vem e que passa, é o hino universal que faz sorrir qualquer mortal às primeiras notas. No Brasil, terra fértil onde tudo nasce, não existe a árvore da tristeza.