Descubro que não sei dormir e que preciso de educar o sono. Bem estranhei as noites em que chegava ao dia mais cansado do que na hora de deitar. As dores no peito, o coração em esforço, os pulmões debaixo de água, lentos, pasmados. Expliquei que sentia ter os pulmões pasmados. Chama-se apneia. Em oito horas de sono conseguia estar mais de cinco sem respirar. Tudo em mim devia estar perplexo. Como se afeiçoasse à morte o corpo todo, a cabeça distraída.
Há anos que procurava enfeitiçar as noites. Ler antes de dormir, desenhar, ouvir as mais delicadas músicas, usar apenas luzes indirectas, gostar até dos gatos que me arranharam, perdoar aqueles que me ofenderam. O objectivo era entregar o corpo a uma disciplina mais pura e esperar que fosse atendido por uma alma qualificada que o velasse no tempo absorto. Para mim, o tempo de dormir era uma passagem por um lugar estreito de onde podia não chegar inteiro. Enfeitiçar a noite colocava-se como fundamental para negociar a minha vida com esse inimigo que abeirava quando eu me tinha inconsciente.
Nas minhas fantasias o inimigo nunca se mostra. É uma sombra agigantada num esconso do Mundo que se move sem jamais permitir que lhe veja um só detalhe do corpo. Um inimigo que bruxuleia, tem voz ou apenas um ruído de nenhuma palavra e pode mudar de um lugar para outro por magia. Frequentemente, há música como nos filmes. E, por ser de uma tristeza muito bela, por ser uma espécie de destino, por vezes ouve-se Meredith Monk, as suas canções de embalar que me fascinam desde rapaz.
O lento piano de “Gotham Lullaby”, ou o pássaro que se levanta em “Do you be”, enquanto o inimigo ameaça simplesmente fazer-me desaparecer na sombra abissal que me persegue. Penso sempre que há uma beleza infinita no medo porque o medo nos revela o extremo de nós, uma espécie de verdade que nos cega de finalmente termos podido ver. Então, meus sonhos de lutar pela vida são muito feitos com armas de encantar. E Meredith pode até estar a um canto, ao piano, sempre com sua voz perfeita, a ver-me e a sorrir, por saber que todas as canções de embalar são túmulos abertos, sem prisão, para os que finalmente partem.
Agora, que educo o sono, entram nos meus sonhos cores e figuras sem rigor, trapalhonas e cómicas que invadem a solenidade a que me habituei. Gente em espalhafato que insiste em vir dizer-me que dormir é uma festa. Estou fora de mim. Parece que vou dormir a terra alheia. As noites emigraram-me para onde Lenz abre a porta mas na sala me esperam bonecos da banda desenhada.