Jorge Manuel Lopes

Nascidos para correr


O que andaram para aqui chegar. No início de The Weather Station, a banda canadiana liderada por Tamara Lindeman, o tom era folk, mas o espetro musical não cessou de se abrir ao longo de sete álbuns. Foi-se tornando mais etéreo, mais intrincado, mais fluido, sobretudo a partir de “Loyalty”, álbum de 2015, o terceiro. E arrancando, sem retorno, para um mundo de imaginação por construir desde “Ignorance”, de 2021.

Lendeman e o combo de configuração variada que a rodeia são suavemente ousados. Eles apresentam uma ideia, uma boa ideia, que é metodicamente explorada e expandida disco a disco. “Humanhood” (Fat Possum/Popstock), agora lançado, partilha o Canadá de Joni Mitchell, Mary Margaret O’Hara e Jane Siberry Siberry (em especial durante “Ribbon”, uma vaga de emoção que se levanta e transfere da canção para o ouvinte). Tem modernismo, sofisticação e frescura de olhar sobre o som que germinou nos anos 1980. Tem jazz nos interstícios e tem psicadelismo light.

Ao princípio, “Humanhood” consegue ser mais direto no caminho em “Neon signs”, indie-pop adulto, aberto como uma autoestrada. Uma corrida desabrida, corrida de libertação, com motivos levemente lisérgicos, que se estende por “Window”. Os músicos que acompanham Lindeman são superlativos, ao serviço da imaginação em abundância. Os arranjos não descem da excelência. Aqui um motivo de piano a sobressair (geralmente por Ben Boye), ali um tricotado rítmico com uma cadência pouco vulgar (por Kieran Adams e Philippe Melanson), mais à frente vagas de ambientalismo digital (Ben Whiteley), por toda a parte subtis e decisivos apontamentos de saxofone, clarinete e flauta, um contributo decisivo de Karen Ng.

Tudo neste disco respira maturidade e ecletismo. “Humanhood” pulsa de vida, vive para andar para a frente, numa ânsia omnipresente mas que alcança o zénite no tema-título. No trio final de canções assiste-se a um progressivo despojamento da revoada instrumental, rumo à rarefação. “Sewing”, por fim, é uma canção de câmara, tocada de modo a não acordar a madrugada, até restar somente o latejar de um piano que já passou.