É uma história com um daqueles arcos narrativos de filme de conforto. Em 1992, os americanos Charles & Eddie alcançaram um sucesso ribombante com a soul bem vestida de “Would I lie to you?”, primeiro single da dupla. A aliança rendeu dois álbuns e terminou em 1997 sem notícia de atrito. Quatro anos depois, Charles Pettigrew morria, vítima de cancro. O desânimo foi engolindo o californiano Eddie Chacon, que em 2005 cuidou de abraçar a fotografia e direção criativa nos meandros da moda, desaparecendo quase por completo do mundo da música. O retorno, sublime e solar, aconteceu no início desta década, em parceria perfeita com o não menos californiano pianista, compositor e produtor John Carroll Kirby, rendendo os álbuns “Pleasure, joy and happiness” (20) e “Sundown” (23), neo soul banhada pelo groove e parcimónia de uma frente marítima onde o verão não cessa. O sucesso comercial já não se contará em milhões, mas a estima ganhou raízes das boas.
Para “Lay low” (Stones Throw), Chacon trocou Kirby por Nick Hakim, artista e produtor da costa leste. O ângulo da luz projetada nas canções acusa alguns ajustes, mas a essência não sai beliscada. A massa instrumental chega em doses homeopáticas e dolentes, adequadas para um álbum que soa mais contemplativo, recolhido. Em momentos como os psicadélicos “Good sun”, “Let you go” e “Birds”, ele continua a mostrar um talento raro, tão raro, para deixar o ouvinte pregado ao chão em estado de arrebatamento com um canto que se eleva quase sem o ouvinte dar por isso, com falsetes, a voz multiplicada por pistas, num diálogo consigo própria, como Marvin Gaye. O funk em estado líquido que ampara “Empire” e a presença de John Carroll Kirby trazem memórias dos álbuns anteriores. A melancolia atravessa o tema-título, onde os salpicos de piano são uma marca da mão autoral de Hakim, enquanto “End of the world” passa pelo ouvinte em estado de levitação e os versos admitem que “I’m lying to myself/ I know/ I don’t wanna know”. Eddie Chacon é, talvez, o melhor crooner deste tempo, e está a levantar uma discografia essencial em nome próprio.