Olívia
Na vizinhança, o bicho mais maravilhoso que vem à rua é a Olívia, uma cadela ainda cachopa que funciona a turbo e cisma com namorar o meu Crisóstomo. O Crisóstomo, por sua vez, tem treze anos, está fartinho de moçoilas aos saltos, e rosna. Odeia a Olívia. Ele está manco e bastante lento, pelo que não consegue fugir. Fica à mercê da folia da cadela que, por mais que lhe expliquemos que ele é um cão reservado e com inclinações francamente antipáticas, investe tudo num amor impossível e intergeracional.
Já expliquei ao Ricardo e à Joana que talvez venha a ser o raptor da Olívia, porque quando a vejo sinto necessidade de começar uma vida no crime, só por afecto. A culpa é toda dela. Salta-me alegre, quer beijar-me o rosto e beija-me, porque deixo, sou muito fácil. E quero agarrá-la, mas ela tem tanta alegria que nem lhe cabe no peito. Corre e bufa nas ervas, procura porcarias no chão para comer, é lambona e toda à pressa. Parece que vai ao Japão e volta num instante. Conhece toda a gente e imagino, com dor, que muita gente sinta a mesma vontade do crime que eu.
Eu já conversei com o Crisóstomo para que ele não amue de ciúme. Compreendo que lhe pareça um perigo que eu tenha amores por outros cães. Mas a Olívia não é normal. Eu acredito que ela vem da Lua, de Marte ou da Marvel, de um livro de Proust, ou daquele inusitado e gentil quadro de Goya. Mas não é desses lugares comuns de onde vêm os cães, de Barcelos ou Valongo, de A-Ver-O-Mar ou Esposende. Ela tem ar de comida lendária. Uma coisa pela qual todos babamos.
Deixei de entender como se vive sem amar os cães, a sua generosidade e sobretudo o entusiasmo. São as criaturas mais entusiasmadas de todas, e têm essa impressionante coisa de nos fazerem sentir que merecemos tal festa. Todos somos merecedores aos olhos dos cães. Em troco da mais pequena carícia colocam-nos em pedestais e esbanjam por nós um afecto ao tamanho das mães. São, obrigatoriamente, a maior beleza possível.
Uso o Crisóstomo para a felicidade. Ele sabe bem disso. Ele é inteirinho para a felicidade. E não há o que faça que esteja errado. Ele está sempre certo. É vindo do Paraíso e tem dentro um pedaço de Deus. A Olívia, mesmo parecendo endiabrada, é igualzinha. Ela vai amadurecer para ter mais calma e revelar como ao fundo de si mesma existe uma lição infinita de humanidade. É o que sinto. Que aprendemos o conceito tão ambicionado da humanidade pelos bichos mais diversos. Sou sempre melhor depois de ver a Olívia. Só por isso resisto ao crime de a raptar. Mas não sei por quanto tempo.
