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Os mistérios e maravilhas dos Tunng

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Para efeitos contabilísticos, os britânicos Tunng são um sexteto, mas em rigor movimentam-se num coletivo de mais de 30 artistas. A sua arte, com 22 anos de prática, continua a levar à letra o híbrido da folktronica, que foi novidade no final do século passado. É só escutar o nono álbum, “Love you all over again” (Full Time Hobby), para comprovar: guitarras acústicas e harmonias vocais em cascata e embalos rítmicos eletrónicos subtilmente persuasivos, tudo rodeado por interferências digitais que abordam o ouvinte sem aviso, de todos os ângulos do espetro sonoro.


E depois há as melodias, diretas mas não óbvias. Com as remisturas certas, este material podia estender o fascínio até às pistas de dança com absoluta naturalidade. Com a frugalidade certa, os Tunng podiam ser um coletivo artesanal que se confundiria com os confins do tempo e com o musgo, o céu e o mar cinzas da Inglaterra profunda. Sucede que optaram por ser tudo isto ao mesmo tempo, o tempo quase todo. Nos seus leitos de eletrónica, estas canções estão embebidas em curiosidade e humanidade, em otimismo e humor, em proximidade.

Frequentemente, derrubam a lógica com métodos idênticos a Lewis Carroll: “Jenny said, ‘No, I don’t wanna go home’/ Screamed at the sky and she swallowed her phone/ Swallowed her car and the TV too/ Burned her hair and her anorak blue”, ouve-se em “Didn’t know why”, entoada como se se tratasse de uma cantilena sombria para perturbar crianças na hora do sono. A sua poesia é do domínio do palpável, todavia imponderável. Retém o fascínio pouco filtrado da infância, mas também com a consciência plena do estado adulto.

“Snails” tem algo de indizível e nada óbvio na sua composição química – as curvas da melodia? – que pode causar uma comoção súbita e sem explicação, como se a vida se fizesse relembrar dentro do ouvinte. Eles são um grupo de amigos que também podiam ser nossos amigos – está lá, na textura das vozes complementares de Mike Lindsay e de Becky Jacobs, entre arranjos bucólicos e modernistas da escola Talk Talk. Com os Tunng, o mistério e o encantamento brota do quotidiano mais quotidiano. E isso é tocante.