Joel Neto

Papéis pela casa


Para o ano talvez lhe demos uma caixa de ferramentas. Mas não desses brinquedos parvos, com que não se consegue apertar um parafuso: ferramentas mesmo, ainda que mais pequenas, menos perfurantes, mais seguras. Estou convencido de que toda a minha ligação à matéria – o gosto da bricolagem, o fascínio pela carpintaria e a construção civil, a própria alegria do jardim – vem das ferramentas que o meu avô me oferecia. Que, aliás, eram versões em ponto pequeno das ferramentas que comprava para si próprio, pelo que o passo seguinte era usá-las realmente – era imitá-lo.

Não sei se três anos, que são quantos o Artur terá no próximo Natal, serão suficientes para uma caixa de ferramentas a sério. Talvez seja melhor evitar o berbequim. Por outro lado, dois, que é quantos ele tem agora, também não pareciam ser assim tão apropriados a que lhe déssemos um piano, e nenhum dos presentes que recebeu este Natal – nossos, do avô, dos tios-avós, dos primos, dos amigos – lhe prendeu tanto a atenção como o piano digital, mais pequeno mas ainda assim autêntico, que fomos comprar uns dias antes da Consoada, um bocado culposos por, ao mesmo tempo, estarmos a mimá-lo com demasiadas coisas demasiado caras.

Oh, como vibra o Artur quando se debruça sobre o seu piano. Primeiro, já aprendeu que se trata de um daqueles brinquedos para conservar guardados. O nosso piano ninguém tira da estante com as mãos sujas, com os brinquedos desarrumados ou com os cães na sala. Mas, então, é um delírio, um monte de botões que produzem ritmos, notas e timbres de toda a espécie, e que se podem tocar algo aleatoriamente, completamente à maluca ou procurando alguma espécie de padrão. Aqui ele ainda não chegou. Mas já experimenta, uma vez por outra, a bater nas teclas ao ritmo dos beats. Ou então sou eu a sonhar, no desejo de que consiga um dia decifrar aquela linguagem – enriquecê-lo-á infinitamente.

Seja como for, o resultado foi de tal ordem que, quando finalmente o correio se despachou com a máquina fotográfica – uma máquina de aprendiz, com menos funções, mas resolução de 48 mega pixels, zoom de 16x, cartão de memória de 64 GB: teríamos matado por uma coisa assim ainda não há dez anos –, guardámo-la para lha oferecer dentro de um mês ou dois. Talvez se conseguirmos ir de férias na Primavera seja uma boa altura. Uma máquina fotográfica é uma bela maneira de começar a exercitar a máxima saramaguiana: “Se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara.” E é outra linguagem ainda – nova riqueza.

Agora não há Natais chatos. Os presentes já nunca são uma compensação para nada. Mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão divertido escolhê-los.