Relação próxima com Luís Montenegro espalhou-se das paredes de um pequeno concelho para a grande montra da política. De ex-autarca a deputado e depois membro do Governo foi um fósforo de escalada.
A biografia que transpira da página online do Governo relativa ao novo secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território é escassa. Muito escassa. Dela constam apenas quatro curtas linhas que apresentam Silvério Regalado como licenciado em Gestão, deputado à XVI Legislatura, gestor e ex-presidente da Câmara Municipal de Vagos. Mas o ruído mediático que se seguiu à sua nomeação ultrapassa bem mais do que o limitado texto que lhe define o perfil oficial.
Não foram precisas horas para que, logo após se conhecer a escolha de Luís Montenegro para suceder a Hernâni Dias, que apresentara a demissão para “proteger o Governo” após se ficar a saber que fundara duas empresas imobiliárias que poderiam beneficiar da Lei dos Solos que o próprio estava a preparar, estalassem os primeiros estilhaços de polémica. E viessem à tona os cinco contratos de assessoria jurídica no valor total de 209 409 euros estabelecidos por ajuste direto com o escritório de advogados de que Montenegro é sócio quando Regalado liderava Vagos, pequeno município no distrito de Aveiro com 22 mil habitantes. Tudo aconteceu entre 2015 e 2021, acabando por fazer ricochete certeiro em fevereiro de 2025.
“O primeiro-ministro deve prestar explicações e esclarecimentos ao país”, apelou Pedro Nuno Santos, secretário-geral do PS. “É importante que Montenegro diga porque entende que não há nenhum conflito de interesses ou nenhuma relação que viole a legislação que existe para garantir transparência e toda a lisura na ocupação dos lugares políticos”, atirou Mariana Mortágua, coordenadora do Bloco de Esquerda. “Espero que tenha tido a devida previdência na análise do novo secretário de Estado”, assinalou Mariana Leitão, líder parlamentar da Iniciativa Liberal e candidata presidencial.
Não foi um bom início de caminhada para Silvério Regalado naquela que é a sua primeira experiência enquanto governante nacional, quase um ano depois de se ter estreado como deputado. Sempre pela mão de Luís Montenegro, que o escolheu para número dois da lista da AD no círculo eleitoral de Aveiro às legislativas de 10 de março de 2024. “Gostava de ver um Portugal mais empreendedor, com uma economia mais pujante, que crie mais riqueza, para que esta depois possa ser distribuída por aqueles que mais precisam. Sempre fiz política com base nestes princípios”, disse então, citado pelo “Jornal da Bairrada”.
Sabendo que não poderia recandidatar-se em Vagos nas autárquicas de 2025 por limite de mandatos, o seu nome chegou a ser apontado às câmaras de Aveiro e Ílhavo. Acabou em Lisboa, no Parlamento, onde se estreou com uma intervenção como deputado do PSD a 17 de abril, com um longo elogio inicial ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, sobre o seu papel como ministro da Defesa na recuperação dos Estaleiros de Viana do Castelo, a que o próprio não reagiu.
As vitórias eleitorais de Silvério Regalado em Vagos haviam sido como que um passeio no parque num concelho em que a Esquerda nunca venceu eleições desde o 25 de Abril. Depois de sete anos (2002-2009) como membro da Assembleia Municipal e outros quatro (2009-2013) como vereador das Finanças, da Juventude e do Desporto, chegou a presidente da Câmara precisamente em 2013, tinha apenas 34 primaveras. Venceu folgadamente com 48,5%, repetiu a vitória em 2017 com gordos 68%, voltou a saborear o triunfo em 2021 (60,7%).
Casado e com dois filhos, tivera curtas experiências fora da política como diretor comercial de uma empresa de soluções integradas para interiores, gestor de clientes da Caixa de Crédito Agrícola de Águeda e assistente de contabilidade na consultora Deloitte.
Habituara-se desde cedo à política e foi nela que quase sempre viveu. O pai foi presidente da Junta de Freguesia de Soza, em Vagos. É em Soza que Silvério Regalado ainda tem casa, agora que vive entre a capital e a terra das suas raízes e que apenas abandonara para se licenciar e depois pós-graduar pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa.
Cargo: Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território
Nascimento: 07/05/1979 (45 anos)
Nacionalidade: Portuguesa (Vagos)