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Uma livraria à beira-mar

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Eram 21, se os contei bem, e com eles vieram professores, pais, avós. Sentaram-se pelo chão, entre as poltronas, e depois foram desfilando ao microfone, enquanto o professor Libânio segurava um dos meus livros e lhes dava a ler um parágrafo a cada.

Estavam lá a Maria e a Júlia, que já faziam parte da minha história, e uma menina que parecia saída do reality show das Kardashians, mas que era a que lia melhor. E também estava o Martim, que exigiu ir com a irmã para ver o Artur, mas o Artur não estava porque a nenhum de nós ocorreu que o Martim fosse.

Vários persuadiram os pais a comprar livros para eu assinar. Todos vieram com um papelinho de caderno na mão, um quadrado minúsculo num caso, um rasgão amassado noutro, para eu dar autógrafos.

Os rapazes mais velhos riram-se muito quando respondi a uma das perguntas com o nome de Jénifer, protagonista de outro livro. Contaram-me que a equipa de futebol da turma se chama assim, Jénifer, porque um dia eles encontraram uma bola a que deram esse nome e seria essa bola a originar a equipa.

A menina das Kardashians acorreu para contar que criou com as amigas da dança um grupo de cheerleaders, mas censurou-se pelo voluntarismo e deixou a punchline a uma colega. Só mais tarde, apanhando-me à parte, veio dizer que já tinha tido uma aula de ginástica com a Marta, mas aí já eu estava distraído com outras duas que se haviam aproximado, muito juntinhas, e enfim desembuchado:
— Sr. Joel, podemos-lhe dar um abraço?

Das muitas coisas adoráveis, comoventes e encantadoras que aconteceram este ano na Lar Doce Livro, a visita de estudo do Colégio de Santa Clara, talvez não por acaso o do Artur, foi uma das mais adoráveis.

Todos os dias em que discutíamos o que seria o nosso projecto, a Marta e eu, sonhávamos com o momento em que homens e mulheres desta ilha olhariam para trás, romanticamente, e teriam saudades de um certo tempo em que existia uma certa livraria, numa certa rua, que pertencia a umas certas pessoas, que tinham um certo bebé. E, de repente, ali estavam eles, esses homens e mulheres do futuro – lendo em voz alta, fazendo perguntas, contando histórias, distribuindo ternura.

Lembrei-me daquele filme: “If you build it, they will come”. Afinal, vieram mesmo. Nunca tinham vindo, não assim, e ainda vieram antes de nós nos esquecermos de que tudo isto, este cansaço, este trabalho, esta vertigem, era em primeiro lugar para eles.